Em 1989, aos 17 anos, Andre Matos era o vocalista do Viper, uma banda paulista de metal melódico (embora essa denominação ainda praticamente não existisse). O Viper havia lançado em novembro daquele ano o disco Theatre of Fate, um verdadeiro divisor de águas no metal brasileiro da época. O primeiro show da turnê foi no Recife, no tradicional festival Mauritzstaad, que acontecia no SÃtio da Trindade e naquela edição reuniu, além do Viper, Shock (PB), Câmbio Negro (antes de adicionar o HC ao seu nome), Caco de Vidro e Órion.
De lá para cá, o Recife viu Andre muitas outras vezes. “Acho que entre 10 e 15 vezesâ€, conta ele, durante entrevista à coluna Lapada, no restaurante Mingus, durante a coletiva de imprensa para promover o show que o cantor fez com o multi-instrumentista Vasco Faé, dentro do projeto Oi Blues by Night. Andre tocou aqui com o Angra, com o Shaman e também se apresentou com sua banda solo, no ano passado.
Na entrevista a seguir, o sincero vocalista fala sobre sua relação afetiva com a capital pernambucana - “O Recife sempre foi pontual na minha carreira†- sobre o disco novo, Mentalize, que acabou de sair no Japão e será lançado no Brasil no dia 15 de setembro - “Está um pouco mais orgânico, mas não menos trabalhado†- sobre a volta do Angra - “ Não fazia parte dos meus planos voltar a essa altura do campeonato†- e sobre suas recentes experiências com músicos de outros estilos - “Se me chamarem para fazer uma participação em um evento de música eletrônica e for "o" cara da música eletrônica, eu vouâ€.
Lapada - Desde 1989, ainda com o Viper, você vem ao Recife para tocar. Você tem ideia de quantas vezes?
Andre Matos - Eu estava pensando justamente isso. Eu não vou dizer que foi uma vez por ano, mas pelo menos uma a cada dois anos, rolou. E, algumas vezes, foi bem seguido. Vim para fazer show, vim pro Abril Pro Rock. Eu acho que umas 10 ou 15 vezes. Desde Dokas atá Fun House, Clube Português...
Lapada - SÃtio da Trindade, em 1989...
Andre Matos - Isso. Clube Português, muitas vezes, com João Marinho. E o próprio Mauritzstaad, que foi o primeirão, em 1989.
Lapada - Como era tocar heavy metal em 1989- E como era tocar no Recife naquele ano?
Andre Matos - Era uma coisa apaixonante, cara, fazer heavy metal nessa época. Acho que é por isso que eu continuei até hoje ainda agarrado nesse som, vamos dizer assim. Porque era um grande sonho.
A gente estava afastado de tudo que rolava no mundo. Com exceção do evento que foi o Rock in Rio, que trouxe todas as bandas de repente, em 1985. E eu tive o prazer de assistir. Eu era muito novo e precisei convencer meus pais a me levarem: era tudo que eu queria, não precisava de presente de Natal, de mais nada. Era uma batalha. A gente não tinha acesso a disco direito, a equipamento. Não havia coisas chamadas internet e celular.
A saÃda (para a volta do Angra) não só foi a melhor como foi a mais honesta
Lapada - Era só na base dos fanzines e dos tape traders...
Andre Matos - Fanzine era uma coisa impressa em papel sulfite, grampeado, xerocado, distribuÃdo à mão. E era o único tipo de você ter acesso a algum tipo de informação. Os caras pegavam as matérias das revistas lá de fora de algum jeito, copiavam as matérias . Tinha muita paixão nisso aÃ. Quem fazia, fazia, não por uma questão de ego, grana ou algo do tipo.
Lapada - Em 1989, o Viper acabava de lançar Theatre of Fate, que talvez tenha sido, naquele ano, o grande disco do que se convencionou chamar depois de heavy metal ou power metal melódico. Hoje, você também está no Recife, às vésperas de lançar um disco, mas que é a consolidação de uma carreira de mais de 20 anos. Qual é a diferença entre o Andre de 1989 e o Andre de 2009?
Andre Matos - Quando eu ando pelas ruas do Recife, eu tento encontrar aquele Andre Matos de 20 anos atrás. Eu fico imaginando se ele está em alguma esquina. Porque eu tenho memórias muito vÃvidas daqui.
O Recife é muito importante na minha vida. Na verdade, acho que o Mauritzstaad foi a primeira vez que o Viper viajou para fora de São Paulo. Todo mundo meio menor de idade. Eu tinha 17 anos. Então, a gente veio meio clandestino dentro do avião, sem autorização, aquele negócio todo. Chegando aqui, era uma coisa bem underground, bem legal.
Lapada - Vocês ficaram num hotel?
Andre Matos - Lá no Centro...
Lapada - ...onde hoje é o Fórum Thomaz de Aquino.
Andre Matos - Perto da ponte, na esquina! E a gente ficou todo mundo num quarto só. Um quarto grandão de hotel, com seis nego lá. Mas, cara, a gente não queria mais nada da vida. Ótimo. Maravilhoso, cara! Pô: pagaram uma passagem de avião para gente vir para o Recife, para a gente tocar, que era o que a gente mais gostava de fazer. Era um sonho. A consolidação de um sonho. Hoje eu posso dizer que eu continuo consolidando um sonho, só que de outra maneira. E o Recife sempre pontuou minha carreira.
Quando a gente criou o Shaman, o primeiro show foi no Recife, no Dokas. E foi uma coisa! A gente estava nervoso, era a primeira experiência fora do Angra, como é que o público iria reagir à quilo. O Hugo, era o primeiro grande show que ele fazia. Depois ele ficou cobra, calejadÃssimo, mas hoje.
Lapada - Qual é a diferença do seu segundo disco solo, Mentalize, para o anterior, Time to Be Free, e os seus trabalhos anteriores?
Andre Matos - Diferença sempre tem, mas eu não sei qual é ainda. Acho que vou descobrir isso à medida que for ouvindo mais. Na versão brasileira do disco, tem um bonus track. É uma música antiga minha, que não chegou a ser gravada pelo Angra, que se chama Don´t Despair.
Na versão brasileira, vamos ter 12 faixas. O disco é uma evolução do outro. Acho que nós secamos alguns excessos do outro disco. Está um pouco mais orgânico, mas não menos trabalhado.
Lapada - E você continuou com Sascha Paeth, Miro?
Andre Matos - Sim. Acabei de voltar de lá (Alemanha). O trabalho foi feito do mesmo jeito: time que está ganhando não se mexe. O que tem que se pensar sempre é evolução. Que evolução, bicho- Como é que a gente pode trazer melodias para dentro do metal que não tenham sido feitas- Claro que isso é uma missão quase impossÃvel, mas é possÃvel, de certa maneira.
É possÃvel fazer releituras inteligentes de certas coisa, dentro do próprio estilo. É preciso se reinventar. Uma banda como o U2 se reinventa o tempo todo. O Queen sempre se reinventou. Então, eu não tenho medo disso não. Mesmo que não seja algo que está na moda agora, talvez não seja o best seller do momento, não seja o Dragonforce do momento, mas longe de mim querer isso. AÃ, você garante a sua longevidade dentro da música, tendo a sua personalidade musical.
Lapada - Eu tenho notado que você, de uns tempos para cá, tem dado uma diversificada na sua carreira. No disco de Mark Sanders, a sua participação é a mais agressiva que eu já ouvi na sua carreira.
Andre Matos - Thrash metal!
Lapada - Você cantou no disco do Korzus...
Andre Matos - Gravei um disco com o Corciolli, que é new age. Cantei no disco do Marcos Vianna, que é do Sagrado Coração da Terra. Blues, com a Irmandade do Blues.
Lapada - Como que é isso na sua cabeça?
Andre Matos - É como o Andreas Kisser diz...
Lapada - Mas você não tocaria com Júnior, de Sandy & Júnior?
Andre Matos - Não faz muito meu estilo, embora o Júnior seja fã da nossa música, já esteve em alguns shows nosso. Mas eu gosto de desafios musicais. Eu sou formado em música clássica, quase fui um músico clássico, mas optei pelo rock. E eu continuo interessado em tudo. Essa experiência dentro do blues e um pouco de jazz, para mim é maravilhoso.
Eu fico muito feliz, muito honrado de estar partilhando isso com grandes figuras. Se me chamarem para fazer uma participação em um evento de música eletrônica e for "o" cara da música eletrônica, eu vou. Não tenho o menor pudor. Eu não coloco a minha carreira em risco se eu estiver lidando com música de qualidade. Eu cheguei a ser criticado uma vez porque eu sai em uma escola de samba, a Vai-Vai, tocando na bateria. Nego falou: "O cara saiu de destaque em escola de samba, é um deslumbrado". Que destaque, meu irmão-!- Eu fui tocar na bateria de uma escola de samba, que era um sonho que eu tinha. Se vier um gringo para tocar em uma escola de samba, todo mundo diz "legal".
Lapada - Se você mistura metal com música folclórica finlandesa, todo mundo acha massa. Se for com música brasileira...
Andre Matos - Se você bota um maracatu, aà é um paga-pau de pagodeiro. Me desculpa: isso aà é ignorância. Eu detesto pagode, odeio axé music, odeio sertanejo melado. Acho isso a praga da música brasileira. Isso acaba com a cultura nacional.
O forró comercial é uma bosta! O baião do Luiz Gonzaga é do cacete! É genial. Tem o Virgulino, um monte de coisa boa. A Banda de PÃfanos de Caruaru é maravilhosa. Mas, forró universitário, não, né, meu amigo-!-!
Lapada - Na volta do Angra, houve rumores de que você poderia retornar. Ainda mais quando se soube do retorno de Ricardo Confessori. Fãs são como filhos de pais divorciados: querem sempre que os pais se reencontrem. Você chegou a ser convidado?
Andre Matos - Eu não estive muito próximo dessa movimentação toda. Na verdade, eu estava cuidando do meu disco, estava lá fora gravando. E não tenho a menor ideia de como isso foi recebido pelos fãs. Não fazia parte dos meus planos voltar para o Angra a essa altura do campeonato. Para mim, é muito mais interessante dar sequência ao trabalho que foi iniciado.
Tem muito mais consistência do que ficar batendo na mesma tecla, ficar repetindo as mesmas coisas. Eu ainda me considero privilegiado no sentido de, como banda solo, posso tocar músicas do Viper, do Angra, do Shaman. São músicas minhas. E que tem a ver com os outros músicos que tocam comigo também. Um participou do Angra, outro participou do Viper, outro do Shaman. Então, há uma história em comum. Acho que a melhor saÃda foi essa. Não só melhor como a mais honesta.